16.3.10

Tributo ao Glauco

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Olá pessoal.

Fiquei alguns meses sem postar nada sobre as aventuras do Tupinanquim e sua vida em Itaquessaba e no mundo dos quadrinhos; já tava na hora de retornar, e nesse momento dramático após a morte do genial e inspiradíssimo cartunista Glauco, o tema do primeiro post do ano é a minha humilde homenagem. Tributo também um pouco atrasado, considerando que a maioria dos colegas quadrinhistas e cartunistas postou seus cartuns já a partir do dia da tragédia, doze de março, quinta feira passada.

A verdade é que estou um pouco ausente não apenas da internet e das publicações on-line ou impressas, mas também da própria vida artística. Não cabe aqui hoje explicar porquês, só quero dizer por hora que eu e o meu personagem mais querido estamos voltando.

Falar um pouco sobre o Glauco: como muita gente da minha geração, consumidor de gibis no início dos anos 80, o Chiclete com Banana do Angeli foi a minha primeira leitura de tiras brasileiras com tema adulto: primeiro foram as coletâneas de tiras que saíram nas bancas, incentivando a acompanhá-las também nos jornais; depois, em 1986 veio a revista bimestral do Angeli que virou febre e logo depois a Circo e a revista dos Piratas e a do Geraldão! Mas bem antes de sair a revista do Geraldão todos nós, fãs da pioneira Chiclete, já éramos fãs de “Los três amigos” Glauco, Laerte e Angeli, um processo natural já que os três autores e seus personagens se completavam num universo cotidiano e ao mesmo tempo bizarro, diverso e coeso como o universo de heróis da DC, onde conviviam com grandes diferenças Batman, Superman e o Monstro do Pântano, por exemplo. Se os personagens do Glauco tinham, por um lado, o traço extremamente estilizado e simplificado, eles traziam em suas linhas rabiscadas e nos diálogos a naturalidade de um mundo ridículo, renegado pela ficção até então, ou excessivamente dramatizado nos quadrinhos e cartuns marginais e escatológicos, com desenhos cheios de sombras, iniciados por Robert Crumb e que no Brasil influenciaram mais Angeli e Marcatti. Para o Glauco, mais do que para os colegas, o bizarro era uma coisa comum, normal, o ridículo está presente em nossas vidas todos os dias e por isso não é preciso chocar: podemos rir e até sentir carinho pelo solteirão que anda pelado carregando seus vícios e sentindo tesão pela própria mãe.

Por fim, uma coisa que me chamou a atenção foi a postura do Glauco diante de uma prática religiosa nesses últimos anos. Como padrinho de uma comunidade do Daime, doutrina que reuniu cristianismo e práticas xamânicas/indígenas e, consequentemente, é alvo de preconceitos, mas também uma novidade curiosa no mundo teológico, Glauco mostrou ao país que definitivamente seguia seu caminho do bem e que sua busca por um mundo melhor ia além do humor sarcástico e críticas político-sociais presentes em suas tiras. Quero mandar um abraço sincero e comovido à família, e dizer que me orgulho de ser um artista quando olho pra esse cenário, nesse país onde apesar de todas as repressões e dificuldades por que passamos, homens como o Glauco Villas Boas deixaram os seus traços na história pra todas as gerações futuras! Às autoridades: façam justiça!

Um comentário:

  1. É uma pena ele ter ido de uma maneira tão brutal, o trabalho dele fará muita falta.

    Beijos!!!

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